sábado, 11 de julho de 2015

O íntimo da arte.

   Seus passos podiam ser ouvidos facilmente pelas escadas e corredores do edifício que o levava para o seu apartamento. Nas mãos compras, alimentos para o corpo e para a alma. Pães e tintas.
   Muita pressa, a inspiração lhe invade, suava muito, aflito...precisava ventar...
   Pobre homem... abre a porta afoito, fecha com o pé, ela bate, larga os pacotes na mesa da cozinha. Procura seu tesouro. Revira, acha as tintas, todas que faltavam... joga uma por uma na palheta, completando seu arco-íris predileto, seus pincéis já limpos, o aguardam, precisam ventar...
   Retira a camisa, joga sobre o sofá, põe o avental, escolhe a tela, tem que ser grande, o vento é forte...
   Se agarra aos pincéis, seu coração bate mais forte, não é necessário rascunhar, nada mais é necessário.
   Com pinceladas fortes, ora grossas, ora finas, dá início à ventania, e a cada pincelada o vento aumenta, começa com cores leves e já vai escurecendo no pequeno cômodo, como num redemoinho, um olho de furacão; A inspiração o arrebata por completo.
   E um frenesi extremo, o vento mostra sua arte, seu dom, sua fúria.
   Do lado de fora, alheio a tudo isso, os pássaros cantam, mães passeiam com seus bebês, e nem desconfiam que ali dentro daquele edifício antigo, no terceiro andar, um homem franzino, um furacão que constrói, lhe arranca as forças.
   Se pudessem ver, não entenderiam os movimentos daquele homem, com pincéis nas mãos, enlouquecido, em meio a ventania, num turbilhão de pensamentos. Calado, sua alma grita!
   Terminado sua obra, o vento cessa, a chuva cai.
   E finalmente o homem descansa em paz.


   Feita em 10/03/2015,  00:40h.
   

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