Era uma casa muito limpa,e nós mesmo crianças, participávamos da limpeza, e éramos chamadas à responsabilidade.
D. Dalva era boa na cozinha, comida da fazenda, daquelas que se começa a comer pelo cheiro. Renatinha, filha dela, minha amiga e elo, brincávamos todos os dias, o dia todo, e gostávamos uma da outra. Eu sabia meu lugar, e gostava dele. Sr. Renato, pai e marido exemplar, saía cedo, e chegava tarde, sua presença era minha hora de ir.
Passei boa parte da minha infância com eles, aprendi a lavar, passar e cozinhar com ela, lembro-me que sua casa era meu refúgio, enquanto meus pais brigavam, lá eu podia ser criança. Não sei como tudo acabou, não houve nada, ninguém disse nada, apenas crescemos. O lugar se apequenou, mas ficou tudo guardado.
Agora minha mãe estava morta.
Dois anos haviam se passado e eu andava pelas ruas de Nilópolis quando a avistei, do outro lado da rua. Passos pequenos e não tão apressados como antes, corri ao seu encontro. Perguntou por minha mãe, choramos juntas, reclamou da Renata,uma rebelde!, definiu, falou-me dela como quem fala de um bebê, sorrimos ao constatarmos isso. Estava bonita mas trazia marcas no rosto, não quis perguntar, me acovardei, deixei que continuasse a pensar que as horas, dias, meses e anos que passei em sua casa, fosse pela companhia da sua filha. Me convidou para um café, mas não tive forças, seria como voltar a um tempo impossível, tive de recusar. Na despedida, a abracei como se abraça um marido que vai à guerra.
Nunca mais a ví.