quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Estrela D'Alva.

O sabonete protex, ômega 3, tem definitivamente o cheirinho da casa dela.
Era uma casa muito limpa,e nós mesmo crianças, participávamos da limpeza, e éramos chamadas à responsabilidade.
 D. Dalva era boa na cozinha, comida da fazenda, daquelas que se começa a comer pelo cheiro. Renatinha, filha dela, minha amiga e elo, brincávamos todos os dias, o dia todo, e gostávamos uma da outra. Eu sabia meu lugar, e gostava dele. Sr. Renato, pai e marido exemplar, saía cedo, e chegava tarde, sua presença era minha hora de ir. 
Passei boa parte da minha infância com eles, aprendi a lavar, passar e cozinhar com ela, lembro-me que sua casa era meu refúgio, enquanto meus pais brigavam, lá eu podia ser criança. Não sei como tudo acabou, não houve nada, ninguém disse nada, apenas crescemos. O lugar se apequenou, mas ficou tudo guardado.
Agora minha mãe estava morta.
Dois anos haviam se passado e eu andava pelas ruas de Nilópolis quando a avistei, do outro lado da rua. Passos pequenos e não tão apressados como antes, corri ao seu encontro. Perguntou por minha mãe, choramos juntas, reclamou da Renata,uma rebelde!, definiu, falou-me dela como quem fala de um bebê, sorrimos ao constatarmos isso. Estava bonita mas trazia marcas no rosto, não quis perguntar, me acovardei, deixei que continuasse a pensar que as horas, dias, meses e anos que passei em sua casa, fosse pela companhia da sua filha. Me convidou para um café, mas não tive forças, seria como voltar a um tempo impossível, tive de recusar. Na despedida, a abracei como se abraça um marido que vai à guerra. 
Nunca mais a ví.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Toc...

   Estou em plena crise de toc.
   Meus pensamentos têm outro dono,
   Que não eu,
   Tenho medo de quase tudo,
   De quase todos,
   Covarde e sozinha.
   Covardemente sozinha.
   Ontem agradeci a Deus,
   por ninguém ter vindo aqui,
   Sou muito fiel às minhas feridas,
   Quem as lambe sou eu,
   Se é loucura, ainda assim,
   É minha,
   Guardada, secreta,
   Sufocada e escondida.
   Não preciso de juíz,
   Preciso do alívio.
   Não quero muletas, 
   Já conheço muito bem o caminho,
   Essa trilha eu sei se cor,
   Pensei estar segura,
   Mas o abalo sísmico,
   Expôs as fendas...
   Feridas que não fecham,
   Memórias que se prestam
   A me fazer sofrer,
   Torturar minha mente.
   Onde se esconde quando quero?
   Não espero que ninguém entenda,
   Não queria nem ser eu,
   Para precisar ser entendida,
   Só quero respeito.
   A muito tempo desisti de ajuda,
   Só quero paz.