sábado, 11 de julho de 2015

O que eu vi.

Passando de ônibus, e eu o ví, apesar de coberto percebi que era homem pelos sapatos sociais pretos, bem engraxados que ficaram de fora do lençol arranjado às pressas. Não havia sangue, somente seu corpo, em forma de cruz, com seus braços semi abertos, como se tivesse acabado de cair alí... Só o lençol denunciava tudo.
E tudo aquilo me acertou como uma pedrada. 
Tampei os olhos e os ouvidos e gritei: -Deus! Eu ví um morto!!!. 
É eu ví o sapato, o lençol, e imaginei o morto. Imaginei uma esposa, que lhe engraxou os sapatos ontem à noite, sem saber que seria a última vez, que faria isso pra ele... Quem sabe reclamou? 
Imaginei filhos, que sequer poderiam imaginar tal coisa, hoje, uma sexta-feira qualquer...
Um ônibus qualquer, naquela cancela, que todo mundo finge que não vê o perigo que é!
Um homem, talvez um marido, talvez pai, um ente querido de sapatos engraxados, num lugar esquecido, uma cancela maldita, um ônibus assassino. 
Foi isso o que eu ví.

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