quinta-feira, 27 de março de 2025

A primeira vez.

Ainda lembro como se fosse hoje.
Primeiro dia, 
Terceiro ano do ensino médio.
Aula de redação,
56 alunos no auditório.
Atrevidamente me aventurando,
Imprimi crônicas,
Todas de autores introspectivos,
Caio Fernando Abreu ( Deus é naja),
Clarice Lispector ( perdoando Deus,  e A galinha).
Dividi a turma em três grupos,
Muitos demoraram a entender,
Era muita novidade.
Nunca fui tão requerida por alunos,
Eles queriam mais.
Saber quem eram aqueles autores,
Nunca haviam visto,
Entender o que diziam,
Suspiravam quando entendiam.
Nada seria como antes,
Para eles e para mim.
No decorrer do ano, 
Fui parada inúmeras vezes 
Nos corredores, na saída,
Queriam entender as crônicas,
Entrar no mundo de seus autores,
Me trouxeram novas,
Interpretavamos juntos,
Foi a minha melhor turma,
Ainda estagiária, 
Me iludi que todos seriam assim.
Mas valeu tanto, tanto,
Que fui a professora 
Homenageada na formatura,
Que eu não fui.
A coordenadora me representou,
Nunca me perdoei por isso.
Eles nunca vão saber o quanto 
Me deram, eu era feliz por eles.
Vivi neles o sonho de ser professora.
Pena que o primeiro amor passou,
Eu fui avisada, 
Me recusei a acreditar.
Hoje uma decepção me levou 
De volta a esses dias,
As lágrimas não pararam de rolar.
Eu li muito sim, e a toa.
Antes tivesse me dedicado
A quebrar paredes,
Erguer muros,
Mas escolhi fabricar pontes...
Estou triste, muito triste,
Queria um abraço daquela turma
Como faziam na hora de sair,
Queria voltar no tempo,
Resgatar aquele amor,
Não é possível,
O super homem, não virá
Me restituir a glória...
Um elefante está sentado no meu
Peito, a cada lágrima que rola,
Posso senti-lo se levantar aos poucos.
O que restará de mim agora?
Quero calar, quero emudecer.
Talvez por ler toda essa gente,
As coisas tenham um peso maior pra mim.
Queria esquecer de tudo,
Me esvaziar de mim.
Ser outra pessoa,
Uma pessoa que consiga
Ser feliz, sem esquecer que já fui.

quinta-feira, 6 de março de 2025

Incentivos.

Faz mais ou menos 32 anos 
da minha última tentativa 
de morrer,
Faltou o papel escrito "negativo".
Veio como positivo, 
era um mundo feito de papéis,
 esse foi o meu.

Eu decidi viver,
Mesmo contra minha 
real vontade.
Fiquei como barca à deriva,
Aonde a onda batia,
Eu ia. E lá fui eu...

Depois deste incentivo à vida,
Vieram mais três, 
Outros contextos,
Outros momentos,
Outras chances,
Que a vida me deu.

Hoje meu último incentivo 
Faz 20 anos, e eu quero viver,
Por eles, 
Por meu amor escolhido,
Por meu pai, 
Por mim.
Pelos meus oris
Quero e preciso viver.

Quero que voem tão alto.
Mas tão alto,
Que sejam confundidos
Com passarinhos.

Toda dor, é nada,
Se não for deles.
Meu corpo dói,
Meus pensamentos lampejam.

Hoje é dia de festa
20 anos se passaram,
Estou viva.
Não preciso de mais incentivos,
Além dos que já tenho.

Deus e meus Orixás,
Foram pacientes comigo.
Misericórdias infindas
Foram despejadas sobre mim.
Desde os 9 anos, 
Eu poderia não estar mais aqui.

Hoje tenho alegrias incontáveis,
Meus incentivos,
Deram frutos...