Primeiro dia,
Terceiro ano do ensino médio.
Aula de redação,
56 alunos no auditório.
Atrevidamente me aventurando,
Imprimi crônicas,
Todas de autores introspectivos,
Caio Fernando Abreu ( Deus é naja),
Clarice Lispector ( perdoando Deus, e A galinha).
Dividi a turma em três grupos,
Muitos demoraram a entender,
Era muita novidade.
Nunca fui tão requerida por alunos,
Eles queriam mais.
Saber quem eram aqueles autores,
Nunca haviam visto,
Entender o que diziam,
Suspiravam quando entendiam.
Nada seria como antes,
Para eles e para mim.
No decorrer do ano,
Fui parada inúmeras vezes
Nos corredores, na saída,
Queriam entender as crônicas,
Entrar no mundo de seus autores,
Me trouxeram novas,
Interpretavamos juntos,
Foi a minha melhor turma,
Ainda estagiária,
Me iludi que todos seriam assim.
Mas valeu tanto, tanto,
Que fui a professora
Homenageada na formatura,
Que eu não fui.
A coordenadora me representou,
Nunca me perdoei por isso.
Eles nunca vão saber o quanto
Me deram, eu era feliz por eles.
Vivi neles o sonho de ser professora.
Pena que o primeiro amor passou,
Eu fui avisada,
Me recusei a acreditar.
Hoje uma decepção me levou
De volta a esses dias,
As lágrimas não pararam de rolar.
Eu li muito sim, e a toa.
Antes tivesse me dedicado
A quebrar paredes,
Erguer muros,
Mas escolhi fabricar pontes...
Estou triste, muito triste,
Queria um abraço daquela turma
Como faziam na hora de sair,
Queria voltar no tempo,
Resgatar aquele amor,
Não é possível,
O super homem, não virá
Me restituir a glória...
Um elefante está sentado no meu
Peito, a cada lágrima que rola,
Posso senti-lo se levantar aos poucos.
O que restará de mim agora?
Quero calar, quero emudecer.
Talvez por ler toda essa gente,
As coisas tenham um peso maior pra mim.
Queria esquecer de tudo,
Me esvaziar de mim.
Ser outra pessoa,
Uma pessoa que consiga
Ser feliz, sem esquecer que já fui.